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Ambiente: Uma nova oportunidade


Por Marcela Valente


Nusa Dua, Indonésia, 25/2/2010 – Dois meses depois da fracassada conferência sobre mudança climática em Copenhague, a comunidade internacional se reúne na Ilha de Bali, na Indonésia, para discutir sobre biodiversidade e ecossistemas, promover a economia ecológica e avançar em reformas institucionais. Representantes de mais de 130 países, em sua maioria ministros do Meio Ambiente, abriram ontem a XI Sessão Especial do Conselho de Administração do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e Fórum Ambiental Mundial em Nível Ministerial, para analisar as mudanças institucionais necessárias para facilitar acordos e alcançar mais efetividade diante dos desafios da agenda ambiental.

O Fórum e o Conselho estarão reunidos até amanhã no centro turístico de Nusa Dua, onde também foi convocada uma sessão simultânea e extraordinária da Conferência das Partes dos três convênios que regulam o manejo de químicos perigosos. A conferência simultânea, prévia ao fórum ministerial, terminou ontem com um acordo das secretarias dos convênios de Estocolmo, Basiléia e Roterdã para trabalhar de forma coordenada em nível internacional, regional e nacional. Para o Pnuma, foi um modelo de sinergia que deve ser seguido por todo o sistema.

Na abertura do Fórum o ministro do Meio Ambiente da Sérvia, Oliver Dulic, que atuou como presidente do Conselho, disse que a reunião “permitirá que se enfrente os desafios e a preparação para a Conferência de Desenvolvimento Sustentável de 2012, no Rio de Janeiro”. Essa cúpula, conhecida como Rio+20, em referência aos 20 anos do primeiro encontro no Brasil, deverá ser o ponto de chegada para o processo de reformas. “A janela da oportunidade se fecha”, disse aos ministros o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, em carta lida na abertura da sessão. Dulic, por sua vez, apelou para que “todos sejamos flexíveis, construtivos e apresentemos ideias inovadoras com resultados concretos que respondam às demandas dos cidadãos”.

O presidente da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono, que participou como anfitrião da abertura do encontro, pediu aos ministros que dessem “um grande mandato ao Pnuma e aos fundos para sua realização. Temos de chegar ao Rio com uma ONU mais coerente, mais forte e efetiva”, afirmou. Antes do encontro de ministros, também houve o Fórum da Sociedade Civil, que convocou representantes de organizações de todas as regiões e de grupos como acadêmicos, científicos, camponeses, empresariais, sindicatos, organizações ambientais, de mulheres, de indígenas, entre outros.

As organizações intercambiaram propostas e conseguiram o documento comum com iniciativas que levaram ao Conselho. “É um grande acordo, é a primeira vez em muito tempo que conseguimos isso”, disse à IPS a argentina Cecilia Iglesias, da Rede Ambiental e representante do grupo regional latino-americano. O fórum social expressou sua preocupação com as barreiras que travam sua participação, como falta de fundos ou o acesso tardio aos documentos discutidos pelos ministros. “Para poder incidir de verdade, não basta assistir ou participar de uma cúpula, é necessário discutir a agenda antes, e depois fazer o acompanhamento”, reclamou Iglesias.

Também pediram participação mais ativa na discussão sobre economia ecológica, conservação da biodiversidade e políticas de manejo dos ecossistemas, e reclamaram maior envolvimento nos preparativos da Rio+20 para garantirem que suas vozes sejam ouvidas. A economia ecológica é uma iniciativa do Pnuma para avançar rumo a um modelo de produção menos dependente dos combustíveis fósseis e mais vinculado às energias renováveis, com boas práticas no manejo da terra e maior valorização do “capital natural”.

O economista indiano Pavan Sukhdev, que lidera o projeto de Economia Ecológica do Pnuma, explicou à IPS que capital natural não é apenas recursos para a produção. “É uma fonte de serviços proporcionados pelos ecossistemas limpando o ar ou regulando a água para evitar secas e inundações”, afirmou. A iniciativa foi lançada pelo Pnuma em 2008, em resposta à crise financeira internacional e está baseada na premissa de que os investimentos ambientais geram novos empregos e permitem alcançar múltiplos objetivos relacionados com a mudança climática e a preservação da biodiversidade. Os presentes em Bali analisarão os princípios desta nova economia, com vistas a incluir este modelo como novo paradigma de desenvolvimento na cúpula Rio+20.



(IPS/Envolverde)

Recuperação de pastos pode cumprir 12% das metas de reduções do Brasil

16/12/2009 - 01h12
Recuperação de pastos pode cumprir 12% das metas de reduções do Brasil

Por Clarissa Lima Paes, da Embrapa




Além de gerar baixo desempenho econômico para o pecuarista, as pastagens degradadas se tornaram elemento-chave em um mundo preocupado com as mudanças climáticas. A recuperação delas e a integração lavoura-pecuária (ILP) – duas tecnologias disponíveis que contribuem para a resolução do problema – vão, juntas, responder por cerca de 12% do compromisso voluntário do governo brasileiro de reduzir em até 38,9% a emissão de gases de efeito estufa até 2020, segundo proposta do Ministério do Meio Ambiente (MMA).

Na prática, a contribuição dessas ações deverá ser ainda maior. É o que avalia o pesquisador Geraldo Martha, da Embrapa Cerrados – unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Como atualmente a abertura de novas áreas para pastagens é uma das causas do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, a recuperação das áreas de pecuária de baixa produtividade já usadas atualmente vai ser fator fundamental na liberação de áreas para acomodar a expansão de alimentos, fibras e biocombustíveis sem a necessidade de novos desmatamentos.

Como a redução de desmatamento na proposta do MMA vai ser responsável por 63,59% do compromisso de redução na emissão de gases de efeito estufa, a intensificação da produção animal em pastagens pode ser, direta ou indiretamente, responsável por 76% das ações de mitigação (NAMAs) propostas pelo governo brasileiro para 2020. “Isso demonstra a importância e urgência de investimentos em pesquisa agrícola e em transferência de tecnologia para dar suporte a essas estratégias de mitigação de gases de efeito estufa, por um lado, e em linhas de financiamento adequadas e outros incentivos para a adoção de boas práticas de manejo em larga escala pelos produtores rurais, por outro”, ressalta Geraldo Martha.

De acordo com uma pesquisa realizada pela Embrapa Cerrados, se um pasto de baixa produtividade e com taxa de lotação de 0,4 cabeça por hectare passa a abrigar cinco animais na mesma unidade de área, cada hectare com essa taxa de lotação que é recuperado pela integração lavoura-pecuária libera outros oito para outros usos.

Além de contribuir na redução do desmatamento, o crescimento de produtividade em si redunda em benefícios para o meio ambiente. “Um pasto produtivo pode ser tão eficiente na conservação do solo e da água quanto uma floresta”, explica Geraldo Martha. Segundo o pesquisador, a grande quantidade de raízes no solo contribui para o aumento da matéria orgânica, o que incrementa também a captura carbono da atmosfera e melhora a eficiência de uso da água e de nutrientes no sistema.

Outro grande problema da pecuária relacionado ao efeito estufa é a emissão de metano pela digestão dos bovinos, que também é diminuída pela melhor qualidade das forragens. Estudos da Embrapa apontam que a emissão do gás pelos animais pode cair pela metade quando eles são criados em sistemas com elevada disponibilidade e valor nutritivo de forragem, como em sistemas de integração lavoura-pecuária bem manejados. “E a boa notícia é que o aumento no desempenho animal em pastagens, além de reduzir o impacto ambiental negativo da pecuária, geralmente aumenta o retorno econômico do empreendimento”, acrescenta Martha.

Para o pesquisador da Embrapa Cerrados Lourival Vilela, que coordena os estudos de pesquisa em integração lavoura-pecuária na Embrapa (Prodesilp), pelo menos metade das pastagens brasileiras estão em algum grau de degradação. Nessas condições, o solo é geralmente de baixa fertilidade e assim há menor produtividade , o que aumenta o custo de produção, especialmente em pequenas propriedades.

Esse quadro de baixa produtividade das pastagens causa perda de matéria orgânica, erosão e compactação do solo. Por outro lado, a integração lavoura-pecuária, além de beneficiar o meio ambiente, permite maior eficiência no uso de fertilizantes, redução de plantas invasoras e ganhos de produtividade tanto nas lavouras quanto na pecuária.



(Envolverde/Embrapa)

TCU elege Programa Água Doce como exemplo de boa prática


TCU elege Programa Água Doce como exemplo de boa prática

Por Redação do MMA




O clima seco e a falta de chuva fazem com que o semiárido brasileiro sofra com a escassez de água. E o aquecimento global só piora a situação. Atento à questão, o Programa Água Doce do Ministério do Meio Ambiente está levando à população daquela região uma alternativa para conseguir água potável: aproveitar de forma sustentável a água presente no subsolo, por meio de sistemas de dessalinização.

Tal iniciativa foi destacada na publicação Segurança Hídrica no Semiárido, lançada recentemente pelo Tribunal de Contas da União. O livro faz parte da série Auditorias de natureza operacional sobre políticas públicas e mudanças climáticas do TCU e recomenda que o Programa Água Doce seja ampliado como uma ação do governo federal que visa assegurar à população meios para enfrentar as vulnerabilidades a que estão sujeitas, em decorrência da variação climática.

Para o coordenador nacional do programa Água Doce, da Secretaria de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano do MMA, Renato Ferreira, esse reconhecimento do TCU é muito importante para o desenvolvimento do programa, que no momento encontra-se em fase de elaboração de seus planos estaduais. De acordo com o coordenador, o programa visa o estabelecimento de uma política pública de acesso à água de qualidade para o consumo humano, contribuindo para a melhoraria da qualidade de vida da população rural da região do semiárido, com os devidos cuidados ambientais e sociais.

Retirada a cerca de 50 metros de profundidade, por meio de poços tubulares, a água subterrânea apresenta características salobras ou salinas o que a deixa imprópria para consumo humano. Para tornar essa água potável são utilizados sistemas de dessalinização. Até o momento, o MMA aplicou a metodologia do programa, com o foco na sustentabilidade ambiental e controle social, em 65 sistemas de dessalinização, em 7 estados do semiárido, garantindo pelo menos cinco litros de água potável, por dia, para cada pessoa beneficiada.

Unidade Demonstrativa

Para fazer com que a água salobra tenha condição de consumo humano ela passa por uma filtragem de alta potência. Assim, metade do que passa pelo dessalinizador está pronta para o consumo.

A outra metade, chamada de concentrado, tem duas destinações. Caso o poço tenha pouca vazão, o concentrado é colocado em um tanque para evaporar. Já nos lugares em que a vazão do poço é maior que três mil litros por hora, o programa Água Doce consegue implantar as Unidades Demonstrativas, que é um sistema de produção sustentável, desenvolvido pela Embrapa, dentro do conceito de convivência com o semiárido.

O sistema é simples. Após a filtragem, o concentrado é colocado em tanques para criação de peixes, ampliando assim a segurança alimentar nas comunidades. Posteriormente a água proveniente destes tanques é aproveitada para irrigação de erva-sal, que será utilizada para a produção de feno. No período de seca, o feno serve de alimento para engorda de caprinos e ovinos da região, fechando o ciclo de produção integrado.

O MMA já implantou 6 Unidades Demonstrativas e prevê implantação de mais 11 até o final de 2010. O trabalho é realizado em parceria com os governos estaduais, Embrapa, Universidade Federal de Campina Grande, Atecel, entre outros parceiros nacionais e estaduais e conta com o apoio do BNDES e Fundação Banco do Brasil.

Participação Social

Com a aplicação do programa em 65 comunidades, cerca de 50 mil pessoas do semiárido passaram a ter acesso à água potável. Para Ferreira, a participação social na gestão dos sistemas de dessalinização e das unidades demonstrativas é fundamental para a sua sustentabilidade. Ele explica que o processo tem a participação dos governos federal, estadual, municipal e das comunidades locais.

Antes da instalação dos sistemas, são realizas reuniões pelos técnicos capacitados pelo programa com a comunidade local, explicando o passo a passo do programa e definindo as responsabilidades dos que serão beneficiados pela água. Por fim são firmados acordos de gestão. Depois dos treinamentos, a comunidade é estimulada a escolher as pessoas que ficarão responsáveis pela operação do sistema.

Para escolher o local que será beneficiado pelo programa Água Doce, o MMA leva como base os índices pluviométricos, de mortalidade infantil, de desenvolvimento humano, e a ausência ou dificuldade de acesso a outras fontes de abastecimento de água potável.

Nos dias 26 e 27 de novembro, as coordenações nacional e estaduais se reúnem em João Pessoa (PB), para definir a estratégia de implementação dos planos estaduais do Água Doce. Alagoas e Pernambuco deverão lançar seus planos, com o apoio do MMA. Na reunião, será realizada uma avaliação das atividades e o planejamento das ações para 2010.



(Envolverde/MMA)

Engenheiros civis discutem edificações sustentáveis na Soeaa

Engenheiros civis discutem edificações sustentáveis na Soeaa


Brasília, 18 de novembro de 2009.

Na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15), em dezembro, membros de 193 países devem assinar um acordo global de controle das mudanças climáticas e de garantia de sobrevivência das futuras gerações. Enquanto isso, em cada país, empresas, ONGs e diversas entidades lançam novos projetos a fim de preservar o meio ambiente. Na Semana Oficial da Engenharia, da Arquitetura e da Agronomia (Soeaa), realizada entre os dias 2 e 5 de dezembro, em Manaus, o painel “Criação de uma certificação para uma edificação ecologicamente sustentável” vai provocar a discussão sobre o tema.

A ideia é defendida pelo coordenador da Câmara Especializada de Engenharia Civil do Confea, Antônio Carlos Aragão, para quem a certificação deve ser emitida por uma unidade formada pelas diversas entidades que compõe o Sistema Confea/Crea. A emissão do selo deve funcionar da seguinte forma: a empresa interessada entra em contato com a unidade do Sistema Confea/Crea para que ela analise os projetos da obra e verifique se estão dentro das normas de sustentabilidade ambiental. As normas, por sua vez, devem levar em consideração os compromissos assumidos em Copenhague e o Protocolo de Quioto, caso ele seja renovado.

Aragão explica que a obra só recebe o selo se constar no projeto o conjunto de iniciativas sustentáveis que vão da obra em si até os fornecedores da matéria-prima. “Não adianta nada uma edificação com material de demolição, reuso de água, grama do telhado, se o cimento utilizado é de uma empresa que polui o meio ambiente”, acrescenta.

As técnicas sustentáveis começam a dominar o cenário da construção civil por todo o mundo. Arquitetos e engenheiros começam a estudar maneiras de reduzir o consumo de energia. Na palestra, Aragão pretende mostrar exatamente isso, exemplos de iniciativas bem-sucedidas, como o do condomínio BedZed ou Beddington Zero Energy Development (Empreendimento de Energia Zero), em Sutton, Londres (Inglaterra). Mesmo com o inverno rigoroso do Reino Unido, as casas do BedZed consomem apenas 10% de energia com aquecimento em relação a uma casa normal. Tudo que se usa lá vem de fontes renováveis, proporcionando energia de “neutro-carbono”. Além disso, enquanto um inglês de uma residência normal consome 150 litros de água/dia, no BedZed o consumo cai para 60 litros.

Quanto à preparação do país para esse novo mercado, Aragão afirma que só depende da vontade do empresariado em mudar a forma de produção. Em relação à conscientização, o Sistema pode contribuir de forma muito efetiva por meio de campanhas e convênios. “Esse processo deve ser iniciado no Sistema e disseminado por meio de campanhas educativas, cursos para os profissionais, convênio com as entidades e universidades”, completa ele.

Os presentes na palestra, que faz parte das atividades do painel “Inovação Tecnológica e Estado da Arte das Profissões”, podem opinar, tirar dúvidas e emitir sugestões e críticas sobre a proposta apresentada pelo coordenador. Na Soeaa, esse tema será debatido no dia 3 de dezembro, às 16h30.

Aryana Aragão
Assessoria de Comunicação do Confea

A Amazônia é que torna o Brasil protagonista global

A Amazônia é que torna o Brasil protagonista global

Por Dal Marcondes, da Envolverde



Reunião do Fórum Amazônia Sustentável, em Belém, reforça a necessidade de participação das empresas e da sociedade civil na definição de um modelo para o desenvolvimento da região.


A Amazônia é a principal responsável pelo protagonismo global do Brasil. Sem ela o país seria como muitos outros no cenário internacional, com capacidade industrial média e um bom desempenho no quesito exportação de insumos primários. No entanto, a Amazônia catapulta o Brasil para o centro das decisões globais quando o assunto é o futuro. O Brasil é visto como o país detentor da maior riqueza global em biodiversidade e fiel depositário da maior floresta tropical do planeta. Desde que o governo militar acabou e deixou como herança a expansão da pecuária na Amazônia, governo, empresas e sociedade civil debatem, discutem, discordam e pouco concordam sobre o modelo de desenvolvimento ideal para um território que corresponde a 53% do país e tem uma população de 25 milhões de habitantes, entre povos indígenas, populações tradicionais, quilombolas, ribeirinhos e centros urbanos com alto grau de sofisticação, como as capitais Manaus (AM) e Belém (PA).


Uma das organizações mais ativas na busca de políticas públicas integradas para a Amazônia é o Fórum Amazônia Sustentável, que realizou no final de outubro, em Belém, seu terceiro encontro anual. Fundado por empresas e organizações não governamentais em outubro de 2007, o Fórum tem se mantido como um espaço privilegiando de debates e de proposições para a transformação do cenário de abandono da região e na busca de soluções permanentes para problemas estruturais, como a ocupação desordenada do solo, a falta de regularização fundiária, a exploração predatória de recursos naturais, como a madeira e minerais, e a existência, ainda, de formas degradantes de trabalho. Desde que começou a atuar, o Fórum conseguiu avançar em compromissos das empresas com a legalidade das cadeias de valor relacionadas à Amazônia. Foi assim com pactos assinados relativos à soja, que embarga o produto de áreas desmatadas, à madeira, que embarga produtos sem origem legal, e à pecuária, que inibe a expansão da produção sobre a floresta e combate o trabalho escravo.


O Fórum avançou, também, na discussão de mecanismos de financiamento para a manutenção da floresta, como o da Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação (REDD). Em parceria com o jornal Valor Econômico e com a GloboNews, construiu um dos mais importantes debates sobre o assunto já travados no Brasil. Mas qual é a contribuição que o Fórum, em sua terceira plenária, pode oferecer ao debate, num momento em que já atinge a maturidade como organização protagonista, próximo à Conferência do Clima (COP-15), em Copenhague, na qual as discussões vão projetar as políticas públicas globais contra as mudanças climáticas, e às vésperas, também, da sucessão do presidente Lula no Planalto?


Do otimismo maduro de Ignacy Sachs ao ceticismo ponderado de José Eli da Veiga, a sessão de abertura do III Encontro Anual do Fórum Amazônia Sustentável mostrou que existem modelos de desenvolvimento plausíveis para a região, inclusive com empresas e organizações já caminhando nessa direção. Contudo, ainda não existe um plano de desenvolvimento para ela.


Do alto de mais de 80 anos de observação privilegiada da inventividade humana, o economista Ignacy Sachs voltou a bater forte na tecla a biocivilização, um desenvolvimento baseado em valores humanos, com grande conteúdo de ciência, conhecimentos tradicionais e baixas emissões de carbono. Sachs também afirmou que é preciso haver uma revolução tecnológica a partir de investimentos maciços e estímulo à educação científica. "Ao discutir o futuro da Amazônia, temos que olhar todo o leque de tecnologias, desde as mais simples até as mais futuristas”, disse. Ele apontou ainda para a necessidade de investimentos em pesquisa sobre a biodiversidade, a implementação efetiva do zoneamento econômico ecológico e a exigência de certificação para os produtos florestais.


José Ely da Veiga apontou como o principal obstáculo para o desenvolvimento sustentável da Amazônia a falta de um projeto de governo para a região. Para ele o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) da Amazônia nada mais é do que uma série de projetos sem uma integração sistêmica. “Não carregam dentro de si uma visão integrada da região”, disse. Esta é uma visão compartilhada pelas lideranças do Fórum Amazônia, que questionam principalmente a falta do Estado na região. “O modelo de desenvolvimento baseado na ilegalidade, no crédito farto e na impunidade acabou”, diz Adalberto Veríssimo, pesquisador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e um dos membros da Comissão Executiva do Fórum.


A sessão de abertura contou também com Rubens Gomes, do Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), Yuri Feres, do Walmart, Caio Magri, do Instituto Ethos, e Fábio Abdala, da Alcoa, uma representação bastante apropriada da diversidade presente no Fórum. Esta reunião mostrou, também, a vitalidade da organização e que sua capacidade de mobilização e representatividade de seus membros é uma poderosa ferramenta de pressão para levar à Amazônia as mudanças necessárias para sua preservação e manejo voltados para a construção de futuros possíveis e sustentáveis. Afinal, um dos consensos é justamente o papel relevante que a região tem e sempre terá para o planeta e para a manutenção da qualidade de vida das populações humanas.


Após dois dias de reuniões e debates, o Fórum decidiu que deverá estruturar uma pauta de propostas para os candidatos à Presidência da República em 2010, temas que deverão ocupar espaço nos palanques nacionais e da Amazônia. Para isso, um grupo de trabalho deverá se reunir nos próximos meses. Também será preparado um documento, subscrito pelos signatários do Fórum Amazônia Sustentável, para ser entregue ao próximo presidente da República, com sugestões e contribuições que o ajudem a olhar para a Amazônia com a perspectiva da modernidade e da perenidade de um desenvolvimento baseado em valores humanos e serviços ambientais vitais para o mundo.


(Agência Envolverde)

A hora da ação contra a mudança climática

05/11/2009 - 11h11
A hora da ação contra a mudança climática

Por Gustavo Capdevila, da IPS


Genebra, 05/11/2009 – O preço de salvar a Terra dos efeitos da mudança climática é ínfimo ou, em alguns casos, inexistente, disse Rajendra K. Pachauiri, presidente do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC), com a aparente intenção de convencer os países industrializados a aderirem ao esforço da comunidade internacional para deter o aquecimento global. “Agora precisamos nos concentrar em nossa responsabilidade, não em um contexto estreito e míope, mas no mundo em seu conjunto porque é totalmente claro que a mitigação dos consequências dos gases causadores do efeito estufa não é uma proposta cara, inclusive pode ser livre de custos”, afirmou o cientista.

O alerta foi dirigido aos delegados de países que integram a Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática que discutem até amanhã, em Barcelona, a sorte do Protocolo de Kyoto, um instrumento desse tratado que estabeleceu as porcentagens de redução das emissões dos gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global. Em particular, interpretou-se que Pachauri interpelava os representantes das nações industriais, sobre as quais recai o compromisso de efetuar as maiores reduções e compensa o mundo em desenvolvimento pelos efeitos daninhos que lhes causa a deterioração ambiental, pela qual não é responsável.

Pachauri advertiu que é a ciência que deverá determinar as posições dos delegados quando decidirem o destino do Protocolo de Kyoto, durante as negociações de dezembro em Copenhague. A ciência é que deverá dizer que, para beneficio do planeta e de todas as espécies que o habitam, as conclusões do quarto informe de avaliação do IPCC são totalmente validas e deverão ser levadas em conta para se chegar a um bom acordo na capital dinamarquesa, ressaltou.

Dessa forma, o chefe do IPCC desaconselhou a intenção, atribuída aos países industrializados, de prescindir do Protocolo de Kyoto e propor em Copenhague um novo acordo que lhes exija menores reduções de emissões. Como um eco das palavras de Pachauri, a representante do Quênia, Grace Ukambu, comentou que quando perguntam às nações industriais por que não colocam na mesa seus números sobre redução de emissões, estas respondem que isso “é difícil econômica e politicamente”. Os países em desenvolvimento, em particular os do Grupo Africano, afirmaram esta semana em Barcelona, no começo das sessões, terem a convicção de que a União Européia pretende abandonar o Protocolo de Kyoto.

A queixa das nações do Sul não inclui os Estados Unidos, porque este país nunca ratificou o Protocolo, embora seja um dos membros da convenção da Organização das Nações Unidas sobre Mudança Climática. Os delegados africanos pressionaram para que as deliberações de Barcelona se concentrem em estabelecer acordos sobre os níveis de redução de emissões por parte das nações industrializadas. “Não lhes daremos um cheque em branco nos outros temas enquanto eles não se comprometerem com os valores individuais e agregados das reduções das emissões que farão”, disse o coordenador do Grupo Africano, Osman Jarju.

Em sua mensagem aos delegados, Pachauri ressaltou as vantagens de adotar os acordos de imediato. Os custos da mitigação dos efeitos do aquecimento global são muito baixos e, em alguns casos, até negativos. É como ter os frutos à mão, insistiu. Um compromisso na matéria daria maiores níveis de segurança energética, ar mais puro e seus benefícios associados à saúde, taxas maiores de emprego derivadas das oportunidades da mitigação, como a transferência para fontes de energias renováveis. O IPCC impulsionou o debate sobre mudança climática com a divulgação de seu quarto informe de avaliação em 2007, mesmo ano em que o Grupo recebeu o Nobel da Paz, compartilhado, por suas pesquisas na matéria.

Esse informe dizia que o aquecimento do sistema climático é inequívoco, de acordo com evidencias como o aumento global das temperaturas médias do ar e dos oceanos, o derretimento das neves e dos gelos e a elevação do nível global dos mares. Caso não sejam tomadas ações para estabilizar a concentração na atmosfera de gases de efeito estufa, no final deste século a temperatura média aumentará em qualquer parte do mundo entre 1,1 e 6,4 graus, embora uma estimativa mais apropriada fixe os dois extremos em 1,8 e quatro graus, segundo o informe do IPCC.

O IPCC prepara seu quinto informe, com a intenção de divulgar uma síntese em setembro de 2014. Durante a reunião de Barcelona, cientistas da organização adiantaram algumas conclusões obtidas nos últimos anos, que serão desenvolvidas no próximo estudo. Por exemplo, a combinação de observações e informações paleo-climáticas demonstram que no planeta houve mudanças sem precedentes no sistema climático, tanto em amplitude como em frequência de centenas a vários milhares de anos.

As mesmas fontes disseram que o derretimento amplamente estendido de margens de gelos se observa na Groenlândia e na Antártida, com efeitos no aumento do nível dos mares. As emissões de dióxido de carbono permanecem na atmosfera durante milhares de anos, causando mudanças irreversíveis no clima e na composição química dos oceanos, afirmaram. Pachauri ressaltou que por essa razão agora a ciência não nos deixa outra opção além da ação. (IPS/Envolverde)


(Envolverde/IPS)